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Investimentos22 Nov 2025Por João Di Giacomo

O Preço do que Não Tem Preço

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Em O Mercador de Veneza, peça que volta aos palcos paulistanos e reacende a atualidade de Shakespeare, acompanhamos a barganha sombria entre Shylock, o agiota judeu, e Antônio, o mercador cristão. Para garantir o empréstimo, Shylock exige o impensável: uma libra de carne do corpo do devedor. Quando a dívida vence e o pagamento falha, a promessa se transforma em litígio; a letra fria do contrato é colocada diante do corpo vivo. Ali, no tribunal, revela-se o limite do cálculo: existem valores que nenhum ouro mede, pois não cabem na lógica da equivalência. A vida, literalmente, não tem preço.

Um século e meio depois, em outro registro, Voltaire empunha o riso para dizer o mesmo. Em Cândido, sátira ferina ao otimismo iluminista, a “velha”, personagem cômica, outrora princesa, narra suas misérias pelo mundo. Entre piratas, doenças e servidões, conta que, para não morrer de fome, vendeu “um naco da própria bunda”. A passagem provoca gargalhadas, mas são gargalhadas de desconforto: quando tudo recebe um preço, até o corpo vira mercadoria, e a dignidade se torna um resto… um troco.

De Veneza no final do século XVI ao século XVIII iluminista, a pergunta atravessa o tempo: o que acontece quando tentamos traduzir a vida na linguagem da moeda?

Séculos se passaram, mas a tentação apenas mudou de vitrine.
Hoje, diante do espelho polido das redes sociais, já não vendemos carne nem cortamos pedaços visíveis de nós, mas oferecemos aquilo de que somos feitos por dentro: tempo, atenção, desejo, vaidade, reconhecimento. Cada clique é um contrato tácito; cada curtida, uma transação afetiva. Pagamos com o que somos para comprar o reflexo de quem gostaríamos de ser.

E assim, no palco digital, tornamo-nos nossos próprios mercadores: embalamos versões editadas de nós mesmos e colocamos nossa presença à venda. Num ambiente em que tudo parece gratuito, o acesso, o compartilhamento, pagamos sem perceber. O preço não está no clique, mas no próprio usuário, convertido em dado, atenção, gesto. No esforço de comprar um pouco de brilho, acabamos vendidos — negociando, a cada movimento, o preço daquilo que não tem preço

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