Adam Smith utilizou a imagem da mão invisível quase como quem acende uma lanterna conceitual: indivíduos em busca de seus próprios interesses poderiam, sem perceber, produzir uma ordem coletiva. A metáfora foi elevada, ao longo do percurso da economia moderna, a um princípio quase mecânico de equilíbrio. Como se bastasse agir livremente para que o conjunto se organizasse.
Mas a figura do agente racional, que sustentava essa sedimentação teórica, não resistiu ao século passado de Daniel Kahneman. A economia comportamental revelou que decidimos sob vieses, atalhos, expectativas frágeis, ilusões de controle. Se as escolhas individuais tremem, por que a mão invisível não hesitaria com elas passando a tremer por consequência?
É nesse ponto que proponho a ideia de um mal de Parkinson na mão invisível: uma mão que ainda opera, mas cuja estabilidade se altera porque o próprio sujeito, ou conjunto de sujeitos que a move já não é tão estável quanto imaginávamos.
A noção de self cultural, de Carlos Byington, ampliando a noção de self da psicologia analítica, ajuda a aprofundar essa percepção.
Não decidimos sozinhos: carregamos símbolos, narrativas herdadas, modelos sociais de êxito e fracasso. O self cultural, quando equilibrado, organiza nosso modo de perceber risco, tempo e valor. Quando se fragmenta, como parece ocorrer no ambiente hiper estimulante contemporâneo, produz oscilações que se propagam das psicologias individuais para o comportamento agregado dos mercados.
A economia clássica imaginou que a soma dos interesses individuais tenderia ao equilíbrio; mas esses interesses, hoje, são moldados por tensões simbólicas, arquetípicas, afetivas e culturais que se amplificam. A mão invisível atende aos mesmos princípios, mas já não repousa sobre o mesmo tipo de sujeito.
O que observamos, então, não é o fracasso da metáfora em si, mas sua transformação.
O mercado talvez seja apenas o reflexo ampliado de nossas próprias hesitações.
A mão invisível continua ali, porém já não se move no silêncio imperturbável que supúnhamos, mas agora com tremores como se sofresse do mal de Parkinson.
