Sou fã do Dussek.
“Maldito dinheiro”, canta Eduardo Dussek em 1984 no álbum Brega Chique. É fácil se identificar. Muitas vezes projetamos no dinheiro a culpa por frustrações, medos ou pela ganância alheia. Mas culpar o dinheiro é culpar o mensageiro. Ele não é bom nem mau, apenas um meio que amplifica intenções humanas.
A história confirma isso. As primeiras marcas de contabilidade, registradas nas tábuas de Kushin há milhares de anos, não falavam de riqueza, mas de trocas, compromissos, acordos. O dinheiro, em suas formas primitivas, sílex, sal, grãos, surgiu para resolver o impasse do escambo. Organizou relações, estabilizou expectativas, permitiu que a cooperação florescesse.
Mas a relação humana com o dinheiro nunca se limitou à utilidade prática. Como lembra Harari em Sapiens, os colonizadores espanhóis que chegaram ao México não viam o ouro como metal, mas como poder, status, destino. Para muitos povos nativos, o ouro era símbolo, ritual, mito. O conflito não estava no metal, mas no significado atribuído a ele. A ganância não nasce com o dinheiro, nasce com a interpretação.
Em outras palavras, o dinheiro não é vilão, é ferramenta. Seu impacto ético depende de quem o usa, das narrativas que o legitimam e das estruturas que o distribuem. Nem o ouro, nem o papel, nem o número digital corrompem por si. Apenas iluminam nossas escolhas — e, muitas vezes, expõem nossas fragilidades sociais.
É aqui que a canção do Dussek ganha profundidade.
A “professorinha” que se prostituía não o fazia por vaidade ou ambição, mas porque o salário que recebia não lhe permitia uma vida digna. O refrão maldito dinheiro não amaldiçoa o dinheiro, mas o sistema que transforma vocação em sofrimento e força pessoas decentes a atravessarem fronteiras que não deveriam existir.
Talvez seja isso que a música, a história e a vida nos lembrem:
O dinheiro é espelho, não demônio.
O que está refletido ali somos nós.
